Moisés,
Massaud . A Criação Literária . Poesia e Prosa. 17ª reimpr. da 1ª ed. de 1969..
– São Paulo: Cultrix, 2008.
IV-
Poesia e Prosa
“ Não é de hoje que
críticos e historiadores vêm procurando estabelecer distinção entre a poesia e prosa , ou ainda entre verso e a
prosa, sem contudo alcançara resultados
mais amplamente convincentes(...) tal situação se perdurará por muito tempo” p
60
“(...), diante das
obras de Camões ou de Balzac, ninguém
pergunta se um é poeta e o outro, prosador. Além dessa diferença saltar aos
olhos, visto ser empiricamente
observável por toda a gente, dir-se-ia que
o que vale é a obra em si, com a sua
“verdade” e seu núcleo de
interesse para o leitor e o crítico.Embora digna de exame, essa posição intelectual não condiz totalmente
com os fatos. Afirma-se que a
contemplação da obra de arte( e, de
certo modo o seu julgamento) prescinde da sua classificação, já que importa a
chamada “emoção estética”. E, se esta existe na obra ou é suscitada no leitor
ou espectador, dizem os defensores de uma atitude purista ou hedonista em
crítica de arte, é o quanto basta” p. 60
“ E a “emoção
estética”, que vem a ser?(...) , conclui-se
que o aficcionado da arte assume perante ela um comportamento passivo,
de quem apenas recebe permanece fora da
realidade intima do objeto que desencadeia a emoção. Mais ainda: a passividade
ante a obra de arte permite sentir prazer, mas não conhecê-la , como deve ser o
intuito último do espectador” p. 60
“ Na verdade, o
conteúdo emocional da obra de arte apenas se revela integralmente quando o
contemplador ou leitor der o salto para o estágio do conhecimento. Sem ele, a
emoção se desvanece porque superficial e momentânea, e porque é a
inteligência que fixa a emoção e nela
visualiza aquilo que a torna um meio de conhecer. Por fim, apenas alcançamos satisfatoriamente uma obra
literária quando sabemos como classificá-la, porquanto o conhecimento obtido ou
a obter no contato com ela varia conforme o seu, a sua espécie e a sua
forma(...) a poesia obedece a leis próprias, diferentes das da prosa, o romance
constitui um universo, de leis específicas, diversas das que regem a epopéia, e
assim por diante “ p. 61
“ A um tipo de
expressão literária, damos o nome d e verso, e o seu oposto, chamamos de prosa.
(...) Com isso, o mesmo
vocábulo,”prosa”, designa um tipo de forma e um tipo de conteúdo”(...) Assim,
Poesia e Prosa, de um lado, e verso e prosa , de outro(...) De qualquer modo,
diga-se ou escreva-se poesia ou Poesia, prosa ou Prosa, o problema reside na
distinção ente ambas, não entre o verso e a prosa” p.61.
“(...) Para Karl
Vosler, “a distinção entre poesia e prosa é algo exterior, isto é, formal, e
quem a toma externamente e, obedecendo livremente à impressão do seu ouvido ou
da sua vista, considera serem poesia formas de falar de aparência simétrica, e
de , prosa, as de aparência Assimétrica, certamente , não muito desencaminhado”
p.62.
(...) é sabido que o
conteúdo e a forma associam inextricavelmente, em especial quando atentamos
para a “forma interior”. Deste modo, a forma seria o conteúdo “
aparecendo”, e o conteúdo, a forma
“significando”( Wellek e Warren 1976). (...) quando Vosler preconiza a
diferenciação baseada na “forma interior”, também está dando ensejo a
admitir-se uma distinção que, em verdade, considera a poesia e a prosa dois
modos de ser do conteúdo literário(...) poesia se identifica com a emoção, ao
passo que “s virtude da prosa é ser ajuizadora; e é a virtude que a poesia não pode ter: se a tem , não é
poesia, mas prosa em verso. (...) Como se depreende, a distinção a pouco e
pouco deixa de fundamentar-se na aparência, nos aspectos formais, para
focalizar os aspectos intrínsecos, que conservam, bem entendido, o liame com os
primeiros. P.62-63
“ Por que é
“evidentemente poesia”? Em razão dos versos? Sempre que deparamos com versos,
ou lago que o valha, temos poesia? E esta, jamais se exprime de outra forma? E
o poema em prosa? E a prosa poética?
P.63
“ (...) , a confusão se
agrava se agrava ao postular que “ o
verso não é apenas diferente da prosa. Opõe-se a ele; não é não prosa, mas
antiprosa”. Adiante, estatui que o “ verso é cíclico, a prosa é linear”: como
se nota, Cohen permanece, coerentemente, em pleno terreno da objetividade
formal, gráfica, empírica, visual p.64
“Cohen proclama: “a
mensagem poética é a um só tempo, verso e prosa”, pois “uma parte dos seus
componentes assegura o retorno,
enquanto a outra assegura a linearidade
normal do discurso” (...) O poema
resiste à desconstrução em prosa, enquanto a notícia de jornal continuará a ser
prosa, qualquer que seja o artifício de torna-la poesia (...) p.64
“ Diante disso, cabe inferir que o processo
mais adequado de estabelecer as
diferenças entre a poesia e a prosa( não entre o verso e a prosa ) implica
serem também de ordem formal, mas que devemos suspeitar do que revelem à
primeira vista(...) . Em virtude de razões histórico-culturais, cujo exame
escapa o âmbito deste livro, a poesia remonta aos inícios da cultura ocidental,
e presidiu ao nascimento de todas as literatura(Lanson 1909: 10, apud Martins
1953). E não só inaugurou as literaturas ocidentais como nelas predominou
durante séculos, “ A prosa só se desenvolveu mais tarde( Murry 1951:56),
1951p. 64-65
(...) Com a hegemonia da prosa literária, os
papéis se inverteram: a prosa passou a ser encarada como capaz de expressar
arte, no mesmo nível da poesia. Em contraposição, o verso sem poesia
praticamente, já podia lançar mão da prosa literária. O anterior estado das
coisas somente renasce com a poesia
panfletária ou participante, com o
parnasianismo ortodoxo, e em certas alas
da modernidade preocupadas com a despoetização do poema, ou com uma liberdade
formal que não consegue que não consegue disfarçar o caráter de prosa disposta
em versos assimétricos(...) p.65
2.
Poesia
“ A palavra “
poesia” vem do grego poesis, de poien,
criar, no sentido de imaginar. “ os latinos chamavam a poesia de oratio vincta:
linguagem travada, ligada por regras de versificação, em oposição à oratio
prorsa: linguagem direta e livre( No geral, baseavam a distinção entre a poesia
e a prosa no fato de a primeira exprimir-se em versos , e a segunda, não” p. 66
“Importa assinalar que
Aristóteles já tinha a nítida consciência das características identificadoras
que tornavam a poesia diversa da prosa e da historiografia. Para o filósofo
grego não é ofício do poeta narrar o que realmente acontece; é , sim o de representar o que poderia
acontecer, quer dizer: oque é possível, verossímel necessariamente.(...) Por
isso a poesia é mais filosófica e mais elevada do que a história, pois refere
aquela principalmente o universal, e esta, o particular. Referir –se ao
universal, quero eu dizer: atribuir a um indivíduo de determinada natureza,
pensamentos e e ações que, por liame ( vínculo) de necessidade e verossimilhança
, convém a tal natureza; e ao universal,
assim estendido, visa à verossimilhança, convém a tal natureza; e ao universal,
assim entendido, visa à poesia quando põe nomes aos seus personagens p.66.
“(..)Os estudiosos
germânicos, com a sua conhecida inclinação para os assuntos de teoria
filosófica e estética, chegaram a uma forma sedutora de resolver a questão: a
poesia seria o núcleo residual e essencial de toda manifestação artística.
Desse modo, a poesia estaria presente na música, na pintura, na escultura, na
arquitetura , na coreografia, como se fosse o seu objeto último “(...0 p.67
(...) A verdade é que
não se trata de um problema relacionado com a forma, mas sim com o conteúdo que
as palavras guardam e com a posição assumida por quem pretende julgá-lo. Para
tanto, impõe-se lançar mão de uma reflexão preliminar: a poesia, entendida como
forma ou conteúdo, pertence ao mundo real tanto quanto os objetos e pessoas que
nos cercam, assim como os sonhos e os planos de viagem que nunca realizam”.(...)
“ É, pois , o real do
espírito, contraposto ao real da matéria, o real físico, cuja percepção se faz
pelos sentidos: o todo , formado da conjunção dessas modalidades de real e mais
a pessoa que pensa e sente, pode ser dividido em dois planos ou entidades fundamentais: o “eu” e o mundo
exterior. A totalidade dos seres e das coisas pode ser traduzida por meio da
seguinte equação: “eu” + mundo exterior. Quanto ao mundo exterior, podemos ,
mais precisamente, subsituí-lo por uma expressão, o “não eu”, o que transforma
o sistema em: o todo pode ser entendido
como a soma do “eu” e do “não eu”. E se
dermos a cada um dos membros da igualdade um sinônimo, “sujeito” e “objeto”
teremos que o todo corresponde a sujeito
mais objeto” p. 68
(...) a poesia tem por objeto
o “eu” ( enquanto a prosa o “não eu”), de tal modo que o “eu” , que confere o
ângulo do qual o artista “vê” o mundo, se volta para si próprio. “ Para o poeta
, somente há um centro: ele{...} ele apenas está atento aos liames que o
relacionam com o mundo, e faz subjetividade o objeto essencial de suas
investigações{...} a atitude do poeta é, pois,
uma atitude de debruçamento sobre si
próprio, uma atitude contemplativa não sem analogia com a do filósofo.
Mas o filósofo contempla ideias gerais, absolutas, infinitas(...) O “eu” , após
descrever um percurso circular, retorna ao ponto de partida, o próprio “eu”. E
o mundo exterior? O “exterior como tal”, acrescenta Hegel na mesma passagem, “o
sol, as montanhas, a floresta, as paisagens(...) não interessam á poesia, visto
que ela tem “interesses espirituais”. P 68
(...) os elementos que
compõem o mundo exterior, o plano do “não eu”, somente interessam e aparecem no
poema quando interiorizados, ou como áreas específicas e que o “eu” do poeta se
projeta, o que significa, afinal de contas, estar o “eu” à procura da própria
imagem, refletida ou projetada na superfície do mundo físico. Tudo se passa
como se o poeta apenas estivesse concentrado nos seres e coisas que constituem
a emanação do próprio “eu”. Por outros termos: a carga de “não eu” que pode
aparecer na poesia sofre um processo transformador, provocado pelas vivências
do poeta, de forma a operar-se íntima fusão entre o “eu” e o “não eu”. O mundo
subjetivo e o objetivo aderem-se, (...)
, formando uma só entidade(...) “(...)
Diante disso, podemos concluir que a poesia é aexpressão do “eu” . Como a
palavra é o signo literário por excelência, infere-se que a poesia é a
expressão do “eu” pela palavra”. P. 69
(...) dois verbos
servem para exprimir a situação que o poeta assume em face do mundo: ser e ver.
Na perspectiva do primeiro , o “eu “ poético exerce ao mesmo tempo dupla
função, a de espectador e a de ator, isto é, a de sujeito e a de objeto. Assim
sendo, a palavra consistiria num instrumento por meio do qual o sujeito procura
comunicar-se como objeto. Personagem única do drama que se representa no seu
ego, o poeta é também o seu único espectador (...) Na perspectiva do ver , o
“eu” mira uma ambiente anti-histórico, antidescritivo e antinarrativo(...) o eu
volta-se para si próprio: (...) ,
visiona imagens em que se espelham os seres e as coisas do mundo exterior, não
eles próprios; vê umas e outros convertidos em imagens, e estas é que, ao fim de contas, montam o espetáculo
em que o “eu” domina. P. 69
(...) À semelhança dos
estatos freudianos ( consciências, subconsciência, inconsciência), podem-se
considerar três níveis ou categorias no
“mundo interior” , entendido como equivalente do “eu”: o “eu social”(...) o “eu
odioso” (...) o “eu profundo”, camada íntima do “eu” , em que depositam as
vivências, transfiguradas pelos outros “eus” e pela imaginação, recalques,
complexos, etc., reino de caos, anarquia, alogicidade, fruto de sensações
vagas, difusas, ainda não verbalizadas, infenso à sondagem alheia, salvo na
medida em que abriga , de acordo com Jung, os arquétipos, analogias profundas
entre o inconsciente individual e o coletivo” p.69
(...) o trânsito não se
faz impunemente, pois, da mesma forma que, de certo modo, o “eu profundo”
resulta de impressões estocadas pelo demais “eus” nos reservatórios secretos, o
“eu profundo, ao vir á tona, sofre pressão de outras esferas mentais : as
pulsões recônditas deforma-se nessa passagem, uma vez que, como tais, em estado
de “pureza”, não poderiam chegar à superfície, ainda que o poeta o tentasse,
guiado por qualquer justificativa consciente(...) p. 70
“(...) a expressão
implica mudança no objeto expresso: tão somente permaneceria “puro” aquilo que
não procurássemos exprimir, ou que não tivéssemos como exprimir- a vivência
(poética) intocada latente, no âmago do “eu profundo”. Sempre que o poeta se
decide, ocorre deformação. Batalha sem vencedor nem vencido, as duas entidades
em luta, a vivência e a palavra, simplesmente existem na relação mútua que
estabelecem: vivência inarticulada é hipótese ou abstração de vaga percepção
intrassensorial, pois que a palavra define o seu contorno quando nomeia a
vivência”.p.70
(...) o poeta
entrega-se ao combate verbal como a própria razão de ser. Do contrário , a
saturação interna poderia comprometê-lo como esteta e ser humano(...)(...) como
se manifesta? (...) Vimos que a expressão poética se realiza por meio de
palavras, mas é de supor que nem todas sirvam ao propósito expressivo: não
significa que haja palavras poéticas e palavras não poéticas, mas que a
detecção das vivências implica palavras “exatas”, , aquelas que, não traindo a
emoção a ponto de dissipá-la, consigam sugeri-la tanto quanto possível. (...)
complexa malha de sentidos e intenções: expresso e expressão se equivalem,
ambos são realidades proteiformes - a
polivalência da metáfora reproduz a polivalência interior. (...) numa equação
que será objeto de exame circunstanciado no capítulo destinado à teoria da
poesia. P.71
(...) a linguagem da
poesia é essencialmente conotativa. (...) a apalavra poética pode reduzir-se
aos seus componentes primários ( os sons) , às suas relações sinestésicas ( a
cor do perfume, a musicalidade, a forma), ou a significados irracionais,
mágicas, (...) ou pode , concomitantemente ou não com essas reduções, ganhar
“precisão”, próxima da linguAGem filosófica.” P.71
(...) o ritmo(...) não
como repetição de um movimento(...), mas como expressão daquilo que no mundo interior do poeta é
permanente movimento em espiral, como uma sequência de sons, de sentidos e de
sentimentos, uma sequência ao mesmo tempo musical, semântica e emotiva(
Richards 1963: 217). (...) o vago mundo interior possui ritmo próprio, nascido
de movimentos desencontrados , mas que se agrupam, constituindo uma unidade perfeita,
obediente a uma sucessividade em
permanente coesão. O mundo da alma, ou da psique, do poeta repetiria o ritmo
cósmico, feito do jogo dos contrários, numa harmonia só perceptível em síntese,
jamais ponto a ponto. E é como sínteses, ou totalidade, que se deve julgar o
que resulta do esforço de exprimir o ritmo interior.
(...) o poema não é a sua apresentação formal, gráfica, é,
sim, a soma de significantes e significados mediante os quais o poeta procura
comunicar-se
(...)a obra toda de um
poeta é uma macrometáfora ou uma
polimetáfora , formada do conjunto das
polimetáforas particulares, isto é, dos poemas p. 72
“(...): qualquer
metáfora tem o privilégio de comunicar poesia? Não, pelo simples fato de não satisfazer àquela exigência
básica: ser expressão do “eu” do poeta(...),
ao contrário da metáfora poética, que, por ser polivalente, fala ao
mesmo tempo à inteligência e à sensibilidade. (...) p.72.73
(...): que relação
existe entre poema e poesia? (...) onde está a poesia? (...) E o leitor? (...)P.
73
(...) , o poema
comunica ao leitor a poesia que existiu no poeta. (...) conteúdo que no poeta
despareceu ou se modificou precisamente para que o poema fosse criado(...)
escreveu o poema para “ver” o que estava
sentindo. (...) T. S. Eliot resume: o pensamento de Gottfried Benn expresso em
Probleme der Lyrik (.1954..), (...) não
consegue identificar este embrião até que o tenha transformado num arranjo de
palavras certas numa ordem correta” p.73
(...) o leitor reproduz
o estado lírico do poeta, enriquecido das sugestões do poema, resultantes
da fixação verbal de sensações e sentimentos que ao próprio criador do
poema eram insuspeitados. P.74
(...)
poesia está em nós, não no poeta, nem no poema. Este, apenas constitui
uma série de sinais que induzem à poesia, ou a deflagram (...)E quando o poeta
termina a sua existência, com ele, se extingue, para sempre, o impulso criador
dos poemas.” P.74
“Quanto à poesia que
ficou registrada nos poemas, surge-nos por intermédio da leitura, o que
equivale a dizer que damos vida, cada qual a seu modo e quantas vezes quiser, à
poesia que os poemas deflagram. Significa que a poesia está em nós e não no
poema, o que nos torna poetas embora não criadores do poema. A função de quem
elaborou o texto seria de mero agente
entre uma vontade superior( inspiração, diriam os românticos) e o poema. A
poesia, nós é que a arquitetamos e a sentimos em obediência ao nosso ser mais
íntimo, quando temos capacidade para tanto. Não o poeta, que não mais sente o que sentiu
ao redigir o poema, mas a poesia
que pode estar nele como leitor. (...) p. 74
Por isso é ingênuo
afirmar que, visto não sabemos se o poeta pensou no que está dizendo, estamos
impedidos de saber o que esta “atrás” ou “dentro” do poema. Na verdade, o poeta
não teria praticado um ato da consciência, menos ainda da razão, ao enfileirar
as palavras que constituem o poema, pelo
simples motivo de que não se pede ao poeta que pense, mas que sinta, e o que ele sente, está no poema como
virtualidade; se o leitor sente que o poema lhe faculta ao cesso a determinada
ideia ou ”situação”, é porque o poema a contém, ou emprega o sinal que conduz
até ela. Pouco importa que as palavras do poeta não fossem de imediata
compreensão ou ele não tivesse
consciência disso. Ao ler as impressões ou a crítica de um leitor agudo, o
poeta pode dar-se conta de haver dito mais do que supunha ter feito. Em
contrário, trata-se de mau poeta, ou de não poeta, ou de crítico medíocre: no
primeiro caso, as palavras do poema dizem tudo e uma única coisa, deixando de
realizar-se como linguagem conotativa ou metafórica; no segundo, o crítico ,
por não enxergar ou não captar as latências
sensoriais de cada metáfora e mensagem cifrada que elas contêm. P. 74
(...) se o poema é uma
tentativa expressiva, deduz-se que nem todo poema carrega poesia, e que nem
toda poesia se manifesta como poema” p. 75
Prosa
Na poesia, como
acabamos de ver, o sujeito, o “eu”, volta-se para dentro de si, fazendo-se ao
mesmo tempo espetáculo e espectador. A prosa inverte essa equação: é a
expressão do “não eu”, do objeto. Por outras palavras: o sujeito que pensa e
sente está agora dirigido para fora de si próprio, buscando seus núcleos de
interesse na realidade exterior, que assim passa a gozar de autonomia em
relação ao sujeito(...), a base comum , para a poesia e prosa, permanece
subjetiva, pois o !eu” é que vê a realidade; a visão do mundo é ainda
egocentrada. P.77
(...); o espetáculo
passa a ser o que está fora do “eu”, no plano físico, e os motivos de interesse
deslocam-se do “eu” para o “não eu”, formado dos demais “eus” e da natureza em
sua diversidade ( o mundo animal, o mineral, o vegetal). Assim, os motivos
exteriores, que antes participavam apenas com a sua carga subjetiva ou como
projeção d, ou no, “eu”, aparecem como os pontos para onde converge o olhar do
escritor. P.77.78
A poesia radica numa
mimese em que o “eu” se curva para dentro de si, no encalço da imagem do mundo
que existe em sua mente e em sua fantasia. A prosa segue percurso diverso, ou
seja, a mimese que localiza o seu objeto na realidade concreta do mundo. Se
aqui procede falar numa visão ou mimese exterior, ali é cabível admitir uma
visão ou mimese interior. P.78
A metáfora permanece
como o meio de expressão mais adequado à cosmovisão do escritor. Todavia,
trata-se de uma metáfora de efeito retardado, uma vez que a sua polivalência
somente se manifesta quando a leitura atinge o epílogo do texto narrativo.
Encarada isoladamente, ou ao longo do fluxo de leitura, parece ostentar
univalência, que se origina do fato de a metáfora usada no circuito da prosa
decorrer da observação do mundo subjetivo, cujos componentes não admitiriam
expressões ambíguas, sob pena de perder o seu caráter “preciso”.Se ocorresse a
dubiedade, a metáfora se tornaria polivalente e, por consequência, tenderia a
comunicar poesia em vez de prosa. Quando destacada do contexto, a metáfora
prosística designaria o objeto sem deformá-lo, pois “representação da prosa
está submetida às leis da precisão e da inteligibilidade” ( Hegel 1944: t.III,
2ª parte, 56). P.78
E a imaginação , como
exerce o seu papel? À primeira vista, a função do prosador consiste em apenas
juntar, harmonicamente, os dados que a realidade lhe vai oferecendo. Em
verdade, porém, a imaginação colabora na seleção e transfiguração dos dados e
no modo como os substitui, ao longo da obra, por outros equivalentes, ou
inventa os que estão em falta.
(...), a imaginação
engendra a fábula e estrutura o universo
ficcional. Por seu turno, a linguagem adquire lógica específica, que a
distância da musica e a aproxima da linguagem filosófica. Quanto ao ritmo,
torna-se permeável, não às sequências de massas sonoro-emotivo-semãnticas, mas
à ordem lógica do pensamento, e composto de unidades sintáticas racionalmente
encadeadas. E o verso sem poesia, isto é, a prosa em verso submete-se aos
padrões sintáticos , o que permite inferir que a cadência ganha páreo com o
ritmo quando o verso carecer de poesia, isto é, for prosístico p.79
4.
poesia , prosa e cosmovisão.
(...) , lembre-se que
procuramos estabelecer a diferença entre poesia e prosa com base nos aspectos
intrínsecos, porquanto seria fácil e enganador fazê-lo com base nos pormenores
extrínsecos. E verificamos que existe um modo de ser e de ver a realidade que é
típico da poesia e outro, da prosa. O primeiro caracteriza-se pelo fato de o
“eu” , matriz das artes, atuar como espetáculo e espectador ao mesmo tempo. Daí
o comportamento poético ser essencialmente anti-histórico, anidescritivo e
antinarrativo. Em contrapartida, a prosa implica um movimento do “eu” para fora
de si, direção do “não eu”, do mundo concreto, físico, de que deriva o seu
caráter histórico, descritivo e narrativo
p.82
(...) a poesia e a
prosa não raro andam juntas na mesma obra. É que, além de não serem estanques,
pois nem sempre sabemos onde para o “eu” a fim de começar o “não eu”, e
vice-versa, ambos se nutrem do mesmo lastro subjetivista e transfigurador da
realidade. Na verdade , “poesia e prosa se atraem reciprocamente, de tal
maneira que, embora às vezes se afastem uma
da outra, canalizando suas águas separadamente como dois braços de um rio, logo
voltam sempre a fortalecer-se mutuamente em novas confluências e novos enlaces.
O poeta puro, o só poeta, em cujo sangue falta o ferro filosófico e prosaico,
fica doente, languidesce e cai no lirismo, como Holderlin ou Morike ou Verlaine
ou Pascoli; e os científicos puros secam e se achatam num intelectualismo
desespiritualizado, como ocorreu a tantos materialistas, naturalistas e
positivistas exatos” ( Vossler 1947: 252-252)
p.83
O
“eu” poético
Tendo em vista orientar
a nossa pesquisa, julgamos conveniente reduzi-los a umas poucas
interrogações.Qual a voz que fala no poema? Qual a identidade do “eu” que se
pronuncia por intermédio das palavras impressas no texto poético? Do autor? Do
autor-civil? Do autor-poeta? Não sendo nenhum desses, de quem será? Qual a
relação entre essa voz claramente audível e a voz do narrador, apta a empregar
não poucos disfarce e modulações? P.109
O processo criador na
prosa narrativa inicia-se quando o ficcionista se dispõe a transportar para a folha
em branco os conteúdos da sua
imaginação” p.109
O ficcionista tem
consciência de proceder como alguém cuja voz deve calar para fazer-se ouvir, mas
o compromisso torna-se tácito desde o instante em que aceita transfundir em
palavras a matéria ficcional que elaborou no silêncio da memória e da
imaginação. P. 110
O narrador cria outros seres que exercem , por seu turno, o
direito de voz. P.110
(...) podemos inferir
que, assim como o poeta se distingue do cidadão, a voz do poema equivale à voz
do poeta. É dado que a voz do poeta é, pelo menos, um “eu contíguo do “eu
social!, podemos supor que a voz do poema seja também um “eu”, agora isolado,
livre de qualquer sujeição à origem, incluindo o “eu do poeta”. Esse “eu” do
poema, também chamado “eu lírico”, “eu poetico”, “eu fictício” ( Welleck e
Warren (1976: passim) p112
O “eu do poeta” se vale
do poema para ver-se como o “outro” ( o “eu lírico) que adota, no poema, a
posição qu ele, “eu do poeta”, ostentaria se pudesse – a de “eu lírico”, pois a
sua corporeidade pertence antes ao “eu poético” que ao “eu do poeta”. Este, por
sua vez realiza-se como tal no gesto de projetar-se no poema; quando o texto
adquire forma, o “eu” simétrico passa a chefiar; a concretude do texto
subordina-se ao “eu” vicário: a sua latência , a sua matéria formativa, porém,
deve-se ao “eu do poeta”: este secreta a linfa que o outro converte em poema.
Não obstante, ambos existem em função da mesma tarefa: erigir o poema.
Construindo este , o “eu do poeta” começa a ver no texto um objeto quase tão
estranho quanto os poemas alheios, coma diferença de que somente aquele texto
lhe permite a suprema quimera: ver-se. Num autêntico jogo de espelhos, o “eu do
poeta” contempla-se num texto que, apesar de edificado com a sua matéria
orgânica, parece fruto de um demiurgo cuja exclusiva missão fosse revelar o “eu
do poeta” a si próprio. P.113
Se entendermos por
confissão e sinceridade o ato de o “eu do poeta” exprimir-se, todo poema será
confessional( como de resto, qualquer obra de arte) p.113
Em suma: fictícia pode
ser a “vivência”, e real, a voz. Quer-me parecer quea voz é real como sujeito de enunciação, um
“eu” empiricamente detectável, a manifestar-se por meio da expressão poética, e
real também por apresentar as características do “eu” como o entende a
psicologia. P.113
A voz seria fictícia
naquilo em que ostenta qualidades de uma pessoa vivente, sem ser vivente, ou em
que pertence ao mundo imaginário, inventado, suposto: não só a vivência
participará do plano da invenção, mas o próprio “eu” que a experimente.
A voz é real em relação
ao poema no qual se expressa e no qual se aloja, não em relação a quem produziu
o texto; é fictícia em relação ao poeta, pois que a criou de sua imaginação,
sem ter em mira a “verdade” documental ou a confissão psicanalística. É certo
que o paciente, no diálogo com o analista, revela a sua imaginação, sobreposta
aos dados da realidade, mas não se trata da mesma imaginação veiculada no
poema: aquela é patológica , esta, não é. O poeta não é doente por ter
imaginação criadora; quando muito é enfermo o homem-civil que nele coexiste,
por carregar em sai comodidade de uma imaginação
criadora. Se um símile fosse permitido, diríamos que, aqui, a imaginação gera
frutos como a ostra segrega a pérola; ali,
a imaginação se distancia da realidade, condenada que é enferrujar; uma
cria e enriquece o mundo; a outra é flor parasitária. P.114
Dependendo do ângulo a
única pessoa verbal do poema é o “ele”, ou seja, um “eu” tornado objeto de um
“eu” sujeito: o “eu lírico” funciona como objeto e, o “eu do poeta”, sujeito.
Entendamos que tal relação somente pode estabelecer-se antes da criação do
poema; surgido este, o “ele” se converte em “eu”, “eu” no/para o poema, embora
“ele” para o poeta que o criou. Não podendo comunicar-se como tal , o “eu”
sujeito (do poeta) desdobra-se num “ele” ( ou “eu” objeto, do poema), espécie
de alter ego capaz de exprimir as intenções do “eu”sujeito. Este ao dividir-se
dá origem ao “ele”, ou terceira pessoa, a exemplo das situações em que fazemos
uso de formas pronominais como “a gente”, on, one , man. Deste prisma o próprio
“tu” ou “vós” ganha função que remete para a terceira pessoa, localizada no
interlocutor ( do poema: a a bem amada, o próximo, a pátria, etc.) ,
precisamente por ser o desdobramento do “eu” na etapa entre o “eu” sujeito e o
“eu” objeto. P.114. 115
(...)No poema lírico, a
despeito de parecer que o “eu” é o do poeta, na verdade é o instrumento que
este manuseia para se converter em realidade palpável: exclusivo meio de
comunicação que é, não concede vaza a nenhum outro, e se este ocorrer, já se
tratará de poeta( mas, por exemplo), do “eu” civil), ou o resultado não merecerá
o apelativo de poesia. Mais uma vez, ilustrar a situação na qual o “eu” do
poema não é o “ele” em que, no momento da criação, o “eu” do poeta se
transforma. p. 115
Em suma: o poeta lírico
reduz a um mínimo a distância entre o seu ego e o “eu do poema”, mínimo
compatível com o requisito primordial para que o texto permaneça esteticamente
válido: a imaginação, o fingimento. O outro extremo da escala em que se movem o
“eu objeto e o “ele” é ocupado pela poesia épica, em que o “eu do poema” parece
desgarrado do “eu do poeta”, a ponto de metamorfosear-se em um “nós imenso, no qual se reflete todo um
povo ou mesmo toda a espécie humana, e não apenas cada leitor per se. p..115
Até aqui , temos
enfrentado o problema do “eu poético” no terreno da expressão. Impõe-se, agora,
situá-lo no plano da comunicação. T.S Eliot distingue , no ensaio anteriormente
referido (1961:96 e SS.), três vozes em poesia: primeira, “a do poeta falando a
si próprio- ou a ninguém”, segunda, “a do poeta que se dirige a uma audiência,seja
grande ou pequena”, terceira, “a do poeta
quando intenta criar uma personagem dramática exprimindo-se em verso”.
No primeiro caso, teríamos a poesia lírica, pois “que o poema expressa
diretamente os pensamentos sentimentos
do poeta”; no segundo, a poesia épica; e
no terceiro , o teatro. Apesar de brilhante e sugestiva, a correlação entre as
vozes e as duas espécies poéticas e o teatro não pode passa em julgado: o texto
dramático merece ficar à parte, uma vez que , além de ocasionalmente poético, constitui
manifestação híbrida. P.115.116
(...), a voz que fala
no poema (lírico ou épico) pertence ao “eu” de que vimos tratando, com as
gradações assinaladas, voz essa que resulta do ato praticado pór outro “eu”, o
do poeta, no momento de exprimir-se. Duas fases percorrem o “eu do poeta”/ “eu
do poema” nesse circuito expressivo: primeira, o “eu”escreve o poema para si,
segunda, o “eu” escreve o poema para os outros. Inicialmente, o “eu” luta por
transcrever no papel o produto da sua lenta maturação imaginária: para “ver” o
que lhe habita a memória, enfrenta o corpo a corpo com o texto, certo de que
somente ali, no mapa que o poema desenha, é possível “ver-se”. O seu impulso
primordial é manifestar-se. p.116
O poeta atende, por
conseguinte, ao comando da sua sensibilidade e da sua inteligência, seja ele
lírico ou épico: a obra arquitetada satisfaz às necessidades do poeta (lírico
ou épico), encarnadas no “demônio” que lhe fustiga a imaginação. Vencida a fase
da expressão, principia a da comunicação, não para uma audiência real( por
exemplo, no teatro ou nas cortes de amor provençais), mas para um lado virtual,
tão solitário quanto o poeta em face do poema afinal desabrochado. Conquanto
implícita na fase anterior, a comunicação se processa automaticamente:
pressupõe o texto, mas aponta para o seu destinatário, não mais para o seu
criador. De certo modo, porém, este é o primeiro interlocutor da voz que no
poema se propaga.
(...) : digamos que o
código verbal (do poema) se insere no código( da língua). Ao compor o texto, o
poeta busca antes de tudo exprimir-se de modo inteligível. E quando, concluída a batalha da criação, o poeta lê o
texto a fim de verificar se atingiu o seu objetivo, já funciona como leitor , e
ainda se preocupa com saber se alcançou a expressão exata dos conteúdos de sua
fantasia. p.117
(...), expressão e
comunicação se superpõem, mas o poeta preocupa-se mais com haver logrado a
expressão desejada do que com o leitor: interessa-lhe saber que alcançou
exprimir-se, e tal preocupação é consciente. A comunicação ainda constitui uma
relação latente, implícita, e que pode não chegar ao plano da consciência senão
mais tarde, quando, pelo distanciamento emotivo e temporal, o poeta se converte
num leitor de seus poemas, semelhante ao “alguém” ao qual se dirige. p.117
Portanto, quer no caso
da primeira voz, quer na segunda voz, referidas por T.S Eliot, o processo
criador de poesia transita por duas fases: a primeira, da expressão, em que o
poeta procura tão somente verter em palavras o “sentimento do mundo” que o
inunda; a segunda, da comunicação, em que o texto é oferecido à fruição do
leitor ( que pode ser o próprio poeta).
p.117
O percurso em dois
tempos descrito pela criação poética equivale a duas catarses (ou dois momentos
de uma catarse única): primeira, a do poeta, que se purga no ato de escrever, e
segundo, a do leitor, que se purifica no ato de ler. Aristóteles referiu-se
apenas à segunda porque ainda ia longe o tempo em que Sigmund Freud
revolucionaria o conhecimento da mente humana com a sua teoria do ego, id e
superego. Na verdade, em termos psicanalíticos, o discurso poético resulta de uma purgação do escritor, uma vez que este
projeta no texto os seus “demônios” ao vazar em palavras o conteúdo de sua
imaginação, o criador de arte livra-se
do “peso” incômodo que o perturba e adquire a serenidade que sucede a
toda verbalização dos subterrâneos psíquicos. “Desabafo”, dir-se-ia em termos
corriqueiros, ou transferência simbólica de uma inquietante plenitude emotiva.
À catarse do poeta corresponde um movimento análogo na mente do leitor, que
purga os maus humores ( soterrados pelas leis da conveniência) no ato de
presenciar, entre piedoso e aterrorizado, a tragédia ( ou o drama) que se
desenrola à sua frente. P. 118
Em síntese: o “eu
poético” define-se como um “eu” que se autoexpressa para se conhecer e para se
comunicar ao leitor. Que a noção de “beleza”, ou da criação de objeto
suscetível de provocar a chamada “emoção estética”, subjaz ao processo, é
desnecessário enfatizá-lo. O nosso intuito resumiu-se em tênar compreender o
fenômeno poético no âmbito da voz que fala no poema, que fala para exprimir-se
e comunicar-se; que fala em seu próprio nome, embora deseje ser universalmente
ouvida e, quiça, espelhar o sentimento vago e não raro desconfortável que
transpassa o leitor de poesia. P.119
Emoção
e pensamento
Assinale-se, por fim, que
a tensão pode crescer em qualquer dos extremos: tensão da emoção e tensão do pensamento. P.141
Dessa dupla zona de
tensão pode-se inferir uma classificação dos poetas dependendo da energia posta
num dos polos, os poetas se distribuíram em poetas da emoção, ou poetas
emocionais, e poetas do pensamento. Suzane Bernard e vislumbra também dois
tipos de poeta, o musical e o pictórico, segundo a tônica incida no aspecto
sonoro ou no imagético da dicção poética ( 1959: 453), mas trata-se a rigor, de
duas modalidade do mesmo tipo de poeta, o emocional. E como este se encontra naqueles aspectos que chamam
a atenção da estudiosa francesa, poderia receber uma denominação ainda mais
precisa: poeta esteta. Virado para a realidade mais por meio da sensibilidade,
da emoção, que do pensamento, dela nos oferece imagens plásticas ou musicais,
metáforas de cor ou som, em que a beleza parece derivar apenas dos ingredientes
visuais ou auditivos.p.141
O poeta esteta seria,essencialmente
o lírico, e o poeta filósofo, o épico. p.
141
O
lírico
O poeta
lírico está centrado no próprio “eu”: “o conteúdo da poesia lírica” é “a
maneira como a alma, com seus juízos subjetivos, alegrias, admirações, dores e
sensações, toma consciência de si própria no âmago deste conteúdo p.191
Se diria que a poesia
lírica opera coma as vivências à beira do consciente, não fosse o fato de as
barreiras que dificultam o acesso a tal estrato psicológico nem sempre dependerem das vivências em si, mas do poeta
que as experimenta. Para alguns poetas, ela afluem sem dificuldade à tona e
suscitam o poema para outros, o trabalho de sondagem leva mais tempo.
Obviamente há vivências mais complexas que outras nesse plano mental. De todo
modo, o poeta lírico trabalha com sentimentos e emoções quase à flor da pele,
em razão do seu peculiar egocentrismo. P.194
Dessas circunstâncias
resulta uma manifestação estética- a poesia lírica- não raro de curto alcance fugaz
duração: o poeta pode sentir que suas inquietações representam as da sua
família, assim como as do seu povo, partido, clube, etc. , mas não pode deixar
de senti-las como indivíduo.
Compreende-se por ser
poeta lírico, ou poeta emocional, significa estar no primeiro estágio do
processo estético, e que o poeta nele situado acaba sendo, as mais das vezes,
de menor categoria quando cotejado com os de padrão épico. p.195
Restaria acrescentar
uma reflexão em torno do tempo verbal empregado pela poesia lírica; como a mais
simples experiência pode evidenciar, predomina o presente, ainda quando o tempo
referido seja o passado ou mesmo o futuro.
É que, ao debruçar-se
sobre o seu mundo interior, o lírico procede como quem se entregasse às
lembranças (...) , ou seja, para ele, o passado e o futuro se tornam presente
graças ao dom de recordar. Mas recordar o quê? As mais das vezes, um único
sentimento: o amor (...) Compreende-se assim, que o poema lírico ostente no
geral curta dimensão, a ponto de o mesmo autor asseverar a “brevidade é a
característica essencial do lírico( idem 98).
P. 196
O
“eu” poético
Tendo em vista orientar
a nossa pesquisa, julgamos conveniente reduzi-los a umas poucas
interrogações.Qual a voz que fala no poema? Qual a identidade do “eu” que se
pronuncia por intermédio das palavras impressas no texto poético? Do autor? Do
autor-civil? Do autor-poeta? Não sendo nenhum desses, de quem será? Qual a
relação entre essa voz claramente audível e a voz do narrador, apta a empregar
não poucos disfarce e modulações? P.109
O processo criador na
prosa narrativa inicia-se quando o ficcionista se dispõe a transportar para
a folha em branco os conteúdos da sua imaginação” p.109
O ficcionista tem
consciência de proceder como alguém cuja voz deve calar para fazer-se ouvir, mas
o compromisso torna-se tácito desde o instante em que aceita transfundir em
palavras a matéria ficcional que elaborou no silêncio da memória e da
imaginação. P. 110
O narrador cria outros seres que exercem , por seu turno, o
direito de voz. P.110
(...) podemos inferir
que, assim como o poeta se distingue do cidadão, a voz do poema equivale à voz
do poeta. É dado que a voz do poeta é, pelo menos, um “eu contíguo do “eu
social!, podemos supor que a voz do poema seja também um “eu”, agora isolado,
livre de qualquer sujeição à origem, incluindo o “eu do poeta”. Esse “eu” do
poema, também chamado “eu lírico”, “eu poetico”, “eu fictício” ( Welleck e
Warren (1976: passim) p112
O “eu do poeta” se vale
do poema para ver-se como o “outro” ( o “eu lírico) que adota, no poema, a
posição qu ele, “eu do poeta”, ostentaria se pudesse – a de “eu lírico”, pois a
sua corporeidade pertence antes ao “eu poético” que ao “eu do poeta”. Este, por
sua vez realiza-se como tal no gesto de projetar-se no poema; quando o texto
adquire forma, o “eu” simétrico passa a chefiar; a concretude do texto
subordina-se ao “eu” vicário: a sua latência , a sua matéria formativa, porém,
deve-se ao “eu do poeta”: este secreta a linfa que o outro converte em poema.
Não obstante, ambos existem em função da mesma tarefa: erigir o poema.
Construindo este , o “eu do poeta” começa a ver no texto um objeto quase tão
estranho quanto os poemas alheios, coma diferença de que somente aquele texto lhe
permite a suprema quimera: ver-se. Num autêntico jogo de espelhos, o “eu do
poeta” contempla-se num texto que, apesar de edificado com a sua matéria
orgânica, parece fruto de um demiurgo cuja exclusiva missão fosse revelar o “eu
do poeta” a si próprio. P.113
Se entendermos por
confissão e sinceridade o ato de o “eu do poeta” exprimir-se, todo poema será
confessional( como de resto, qualquer obra de arte) p.113
Em suma: fictícia pode
ser a “vivência”, e real, a voz. Quer-me parecer quea voz é real como sujeito de enunciação, um
“eu” empiricamente detectável, a manifestar-se por meio da expressão poética, e
real também por apresentar as características do “eu” como o entende a
psicologia. P.113
A voz seria fictícia
naquilo em que ostenta qualidades de uma pessoa vivente, sem ser vivente, ou em
que pertence ao mundo imaginário, inventado, suposto: não só a vivência
participará do plano da invenção, mas o próprio “eu” que a experimente.
A voz é real em relação
ao poema no qual se expressa e no qual se aloja, não em relação a quem produziu
o texto; é fictícia em relação ao poeta, pois que a criou de sua imaginação,
sem ter em mira a “verdade” documental ou a confissão psicanalística. É certo
que o paciente, no diálogo com o analista, revela a sua imaginação, sobreposta
aos dados da realidade, mas não se trata da mesma imaginação veiculada no
poema: aquela é patológica , esta, não é. O poeta não é doente por ter
imaginação criadora; quando muito é enfermo o homem-civil que nele coexiste, por
carregar em sai comodidade de uma
imaginação criadora. Se um símile fosse permitido, diríamos que, aqui, a
imaginação gera frutos como a ostra segrega a pérola; ali, a imaginação se distancia da realidade,
condenada que é enferrujar; uma cria e enriquece o mundo; a outra é flor
parasitária. P.114
O
tempo
"Primeiro : não é
o tempo como história que nos importa focalizar (...)
Segundo: o tempo como
tema igualmente se colocará fora de nossas cogitações. O carpe diem, a
efemeridade da existência, a saudade do passado, as incertezas do futuro,
enfim, tudo quanto constitui, desde sempre, matéria de angústia ou meditação em
torno da passagem irreversível do tempo, transborda os limites da nossa
análise”. (...) o tempo(...) histórico,
psicológico, mítico. " E o tempo poético, onde se encontra? (...) a quarta
dimensão do tempo. p.120.
(...) ao dizer que o
tempo da poesia se localiza no texto não estamos afirmando que as outras três
dimensões se estruturam fora dele. A rigor, somente podem ser mensuradas (ou
pensadas) a partir de uma tábua de referência que constitui, por extensão de
sentido, um texto. Entretanto, o texto não os contém, mas os representa ou
simboliza; mede-os, suscita o pensamento que os concretiza, mas não os
compreende no seu espaço físico. O relógio contabiliza o tempo que se admite
fluir à sua revelia, enquanto a duração e o mito se realizam como dimensões
temporais num texto em que são referidos ou descritos. “p. 122.
“O tempo na poesia está
recluso no poema, como se o referente e o referido se entrelaçassem numa
unidade compacta: o tempo retornaria às suas nascentes sem chegar à foz, ou
esta e aquelas se mesclariam, num círculo vicioso ou num moto-contínuo, como se
o tempo devorador dos Antigos.- simbolizando em Cronos-, estivesse
simultaneamente a gerar outros seres da próprias entranhas. Fonte e
desaguadouro, num só impacto, o tempo da poesia é o tempo da palavra. Como
suspenso numa galáxia própria, o tempo
da poesia é se manifesta na enunciação das palavras que constituem o poema; a
sucessão de vocábulos no interior do
poema articula-se num tempo que não é histórico, nem psicológico, nem o mítico
– é um tempo imanente, gestado pela enunciação dos signos verbais e numa sequência irrepetível, pois cada poema é
único” p. 122
“Cumpre-se, no poema,
um tempo imanente à palavra, não condicionado ao ritmo do calendário, mas
dinâmico, “real”, uma espécie de presente-eterno exposto à nossa efemeridade
(...) a contagem das sílabas, a indicação das cesuras e pausas, o esquema das
rimas, a marcação da cadência, etc., fornecem dados externos, que não podem ser
confundidos com o tempo.
“a palavra poética
estrutura-se com base numa tensão múltipla, de natureza rítmica, emotiva,
conceitual ou semântica. Aqueles expedientes versificatóriso servem à
compreensão dessa tríplice tensão, mas não a desencadeiam. E essa tensão que
assinala a presença, no texto, de um tempo sem igual, ambíguo por natureza, que
transcorre no circuito das palavras. Tudo se passa como se as três dimensões do
tempo se fundissem numa só: a dimensão emocional, a dimensão semântica e a dimensão
rítmica, entrelaçadas numa duração dialética.
“(...) Se a palavra é o
habitat do ser, a palavra poética é a sua morada eleita, porque acima das
contingências, a da História, a da consciência e a do mito:“ a poesia é a
instauração do ser como palavra” ( Heidegger 1958: 107).”
HISTÓRICO
DO ROMANCE
(...) no Brasil o
romance chegou tardiamente, e não raro mesclado de expedientes novelescos : só
com Joaquim Manoel de Macedo( A Moreninha, 1844) começa de vez os eu cultivo
entre nós, mas é com José de Alencar ( O Guarani, 1857) que passa a ser
largamente cultivado. Ligado a figurinos europeus ( Alexandre Dumas Filho,
Walter Scott, Eugênio Sue, Balzac), ou a americanos ( Fenimore Cooper),
propunha-se a valorizar os temas
nacionais ( o indinianismo, o sertanismo, os temas históricos e urbanos)
Com o Realismo, o romance vive um período de grandeza indiscutível, com Machado
de Assis, Aluisio Azevedo, Inglês de Souza(...) Lima Barretoe Graça Aranha intentam à luz das doutrinas
simbolistas, nacionalizar ainda mais o romance, mas é com o modernismo de 1922
em diante que ele atinge a sua maior altura observada até hoje. A partir
de 1930, vêm surgindo alguns nomes de
primeira categoria, dentro e fora das fronteiras do país: Jorge Amado, José Lins do Rego(...) “.
P. 388
Romance- a composição-
“As técnicas de
composição, em número ilimitado, nascem dos arranjos possíveis dessas células
dramáticas, tudo dependendo da imaginação e do talento do romancista. Não há um
esquema rígido nem prévio: cada situação dramática é um caso à parte, único,
distinto dos outros, de acordo com a substância da obra; cada romance formula
as próprias convenções e leis, sempre atendendo às exigências que fazem dele um
romance e não um conto ou novela. “ p.488
“(...)agrupar o romance
em dois tipos fundamentais, conforme a relevância da técnica empregada.
Entendamos, porém, que esta resulta do modo como o romancista encara realidade,
o que permite supor duas técnicas de composição e duas muldividências equivalentes
e, até certo ponto, recíprocas. Desse modo, falar das técnicas é falar das visões de mundo e vice-versa. P.
488.
“ Primeira: o
romancista abstrai da realidade viva, circundante, uma estrutura orgânica, em
consequência de abstrair o mundo. O romancista ordena e unifica racionalmente
os dados recolhidos por sua sensibilidade segundo um cânone que apenas rege a
obra escrita, e não o mundo real de onde a sua intuição partiu. O romance
torna-se um universo fechado, autônomo, paralelo ao outro que espelha ou em
quem se espelha. Esse processo de composição, literário por excelência, não
pretende reproduzir a realidade vital, mas criar um mundo todo seu,
independente, regulado por normas que não cabem no mundo real. É a técnica
adotada pelo romance linear ou progressivo.
p.488
“ Segunda: o romancista
procura imitar o mundo e a natureza, notadamente no seu aspecto caótico. Guiado
pela sua sensibilidade liberta de pressupostos lógicos, procura captar a
realidade viva tal qual se lhe apresenta no plano dos sentidos, por outras
palavras, extrair da realidade a sua estrutura dinâmica e descontínua, -
esquiva às racionalizações. O romance , por isso, utiliza uma estruturação
semelhante à da realidade flutuante que o escritor procura desvendar e
conhecer. É o caso do romance vertical e analítico” p.488. 489.
“ (...). O romance linear ou progressivo adota
técnicas monofônicas, isto é, em que só um tema, só um ritmo ou uma só escala
musical orienta o andamento da história, a tal ponto que acabam sendo
monótonas, inclusive no sentido pejorativo do termo. (...) O narrador está mais
interessado na história do que em criar uma obra, escrever um livro: os meios
se empobrecem para favorecer o propósito exclusivo de trançar o enredo; o
romance, como recriação polivalente do mundo( que demandaria uma técnicas), não
conta para ele. p. 489.
“ (...). Em razão da
monofonia, aliada à incidência de postulados ideológicos, pode ainda ocorrer
que o ficcionista construa o romance( e, portanto reconstrua a realidade) como
se estivesse demonstrando um teorema. Processo mais falso que o anterior, pois
teorema e construção romanesca se antagonizam por natureza, o seu emprego –
como durante o Realismo e o Naturalismo – pode violentar a matriz vital de onde mana a plausilidade do romance como
recriação do mundo.. E , por isso,
acabou de se transformar num processo artificial e mecânico, sobretudo nas mãos
de ficcionista inábeis. “ p.489
“ (...) , o romance
vertical adota técnica polifônica ou sinfônica uma vez que “ o romance se
constrói como uma sinfonia, em que as vozes se equilibram, se casam , se
respondem, em que brilham grandes temas , tratados em tons e tempos diversos,
em que todas as variações se encadeiam a partir de uma ‘ ouverture’ majestosa
que domina a obra, pois imediatamente cria para ela um clima particular, mas
permanecendo em lugar, evita criar, por sua amplificação desmesurada, uma
hipertrofia que lhe romperia o equilíbrio” (idem, 199-2000; Backitin 1988).”
P.490
“ Essa técnica
pressupões a transposição, para o plano ficcional, do caos em que mergulha o
mundo real quando analisado sem preconceitos matemáticos ou lógicos. O romance
que o adota, o analítico, aproxima-se da
vida pela estrutura desordenada em que se sustenta, mas é preciso cautela para
julgar essa mimese. Eis por que o romance vertical continua a proceder
basicamente como o linear, sob pena de perder a fisionomia literária: a sua
estrutura obedece a determinadas
convenções e leis próprias da ficção, e não às que norteiam o mundo dos seres
vivos. Trata-se de um caos literário,
organizado e fixado, pelo fato de o romance conter uma visão da
realidade. (...) . O romance flagra uma das metamorfoses do cenário existencial
e confere-lhe atestado de permanência e imutabilidade. O caos do romance será
sempre igual a si próprio, e reflexo de transposição de um instante de panorama
universal, ao passo que este corre sem parar em várias direções. A entropia do
mundo reflete-se no microssomo romanesco e deixa-se contemplar. P.491
“ . O romance sinfônico
ou polifônico procura refletir a realidade em todas as suas dimensões, e não
apenas em linha reta, como se lhe catasse a essência, que é uma esfera e não um
retângulo( como faz crer o romance linear) (...) como se o ficcionista, vendo o
mundo em determinado momento, conseguisse apreender-lhe a face coberta de
sombras no simples desejo de concentrá-lo numa síntese polifônica. Ou como se
imobilizasse um momento que representa o permanente fluir para o desconhecido.,
de forma que, numa visada, se apreendessem também os sinais do que o mundo já foi e do que virá a ser nas futuras mutações. O
romance simbolizaria o passageiro e o perene das coisas, seja pela estrutura
sinfônica , utilizada, seja pelos dados
misteriosos , que a sensibilidade do ficcionista detecta no instante de
visualizar o mundo no seu ininterrupto dinamismo.. p. 491
“Assim se explicaria o
alcance de certas narrativas e de
certas epopeias: sintonizam o
transitório e nele divisam o perene, tornando-se espelhos em que as gerações se
miram como se recuperassem modos de ser conservados no inconsciente coletivo.
Autênticos microssomos, tais romances e poemas épico significam o esforço que
todo ser humano empreende a fim de compreender a complexidade do mundo, bem
como de encerrá-la numa suma perfeita e tentar resolver os enigmas que a sua
inteligência cria ou desvenda. “ p.491
(...). Uma simples
incidência no viver de cada indivíduo repercute um movimento geral, composto da
soma de ocorrências individuais interligadas, e deflagra ao mesmo tempo um
processo que vai exercer, por sua vez, influêcia em tudo o mais à sua volta.
P.492.
(...) . Um perfume, uma
cor, uma nota musical, um detalhe físico, um tudo-nada pode provocar sutil e
profusa imersão no tempo ou na memória, que irá associar-se , por contágio, a
incontáveis peculiaridades da vida social. Tal processo de simultaneidade se
desenrola no presente, como horizontalidade, e no passado, como verticalidade,
tudo compondo inextricável amálgama. Essa técnica, que explora as sinestesias
em toda a sua extensão torna-se a chave
do romance vertical, como bem exemplifica a ficção de Proust. P. 492
“(...). De certo modo,
o romancista tenta, conscientemente ou não, criar um microssomo ficcional
semelhante ao cosmo que lhe serve de modelo. Nas literaturas vernáculas, o processo
tem sido poucas vezes empregado, e sem maior êxito, como resultado de uma conjuntura
histórico-cultural cujo exame não cabe
no espaço destas considerações. Os poucos exemplos mencionáveis situam-se nos
primeiros degraus em matéria de complexidade. O Cortiço emprega, conquanto de
forma embrionária, a polifonia simultaneísta. P.492
“(...) , a técnica
polifônica aproxima-se da vida, não da
aparente, mas da subterrânea, de que só nos apercebemos quando dela
abstraímos o transitório, ou procuramos vê-la de perto. Contudo, é mais
vida que a simplicidade linear do romance progressivo. “p. 493
“Paradoxalmente, o
leitor médio parece reconhecer-se mais no romance linear do que no “vertical”,
talvez por buscar na leitura uma esfera além da vida, um narcótico para os
sentido, ou porque não alcança enxergar , nem na vida nem no romance vertical,
as suas dimensões ocultas e significativas. Na história que lhe simplifica
esquematiza o real, ele se encontra e se completa; na outra, não. Por isso, o
romance vertical continua ainda de circulação erudita de leitores cultos ou de
intelectuais, capazes de abstração ou de valorizar uma visão microscópica do
mundo; e o linear é preferido pelo leitor menos interessado nos componentes
estéticos e filosóficos do romance do que no fluir da história, ou pelos
intelectuais menos exigentes, que só atinam com as passagens descritivas do
romance, ou com aquelas que correspondem à defesa da sua crença ideológica. P.
494
O
romance e as demais formas de conhecimento
(...) , a Literatura
reflete as condições ambientais em que
se desenvolve , assim como a Filosofia, as ci~encias, as religiões e as demais
artes, mas não se explicam somente pelo contexto social. É certo, pois, que a
atividade literária recebe influência externa, seja no ambiente , seja das
outras formas de expressão da realidade. Contudo, não se perca de vista
que também atua sobre o contexto à sua
volta, num movimento de permuta que jamais
cessa. P. 517
(...). E entre as
formas em prosa, cabe ao romance papel relevante: além de exercer impacto na
vida, colaborando para que os leitores construam a sua muldividência, absorve e
integra os fluxos que partem da história, da psicologia, das artes, etc. Tudo parece convergir para o
romance, tudo procura ser, não um livro, como queria Mallarmé, mas um romance.
“Eis por que a obra completa da prosa é o romance” ( Alain 1963: 313) “ p. 517
(...) ; o romance tende
a atrair para dentr4o dos seus limites
as outras formas em prosa, ou a impor-lhes mudança substancial. Mais ainda,
qual poderosa calafita, imanta a poesia e o teatro e acaba por assimilá-los: “
o romance é um gênero imperialista. Nele há uma vontade de domínio e um poder de absorção comparáveis aos da raça
anglo-saxônica. Se começou a nutrir-se
com as sobras da poesia e do teatro, agora está à mesa; a casa lhe pertence e eles devem
abandoná-la[...] o romance devora tudo” ( Thibaudet 1963: 156). Como essa
galvanização se afigura o tópico mais significativo do capítulo das relações
entre a Literatura e as demais formas de conhecimento, nele deteremos a
atenção. “ p. 517.
Romance
e poesia
“ A cosmovisão
ficcional , recriador ado mundo, carrega poesia nas bases, segundo um mecanismo
fácil de entender: fruto da imaginação(mais a observação e a memória), o romance
escapa de ser uma fotografia da realidade para se tornar uma visão pessoal ,
subjetiva. O ficcionista deforma a realidade por via da imaginação , buscando
acomodá-la nos limites e nas estruturas
que seleciona para esse fim: ora, tanto as estruturas são
paraestruturas, resultantes da imaginação transfiguradora do real, como o são
as metáforas de que o escritor se vale para erguê-las e exprimi-las. A dinâmica
que aciona o imaginar, o estruturar e o metaforizar corresponde a ações que
implicam poesia, com a condição de se coordenarem e de se integrarem na matéria
do romance” . p. 520.
“ Com efeito, o romance
introspectivo eo psicológico trouxeram nova concepção de realismo e realidade.
Não mais o “real por fora” , mas o “real
por dentro”: o olhar não detecta apenas o “fora”, mas também o “dentro “
dos seres e objetos, como se o romancista , podendo radiográfa-los, lhes
sondasse os labirintos interiores. Considerada superfície do mundo ilusão
passageira, a essência das coisas torna-se agora o foco da atenção. De repente,
as coisas , tachadas de inertes pelo realismo anterior, entram a agitar-se ,
como animadas por um misterioso moto-contínuo. O mundo torna-se palco de
enigmas, e cada objeto um vórtice em que se perde o olhar extasiado do romancista.
Tudo ganha estranha fisionomia, como se o mundo fosse habitado por seres
desconhecidos em perpétuo dinamismo e a exercer forte pressão sobre as
criaturas pensantes. Como diria Fernando Pessoa, tudo vira do avesso e
entrega-se a frenesis sem pausa, sob o comando de magias e bruxedos. O real é,
agora, esse mundo novo desvendado, e não mais o outro, composto de seres em
repouso e oferecidos à visão preconceituosa do romancista”. P. 522
HISTÓRICO
DO ROMANCE
(...) no Brasil o
romance chegou tardiamente, e não raro mesclado de expedientes novelescos : só
com Joaquim Manoel de Macedo( A Moreninha, 1844) começa de vez os eu cultivo
entre nós, mas é com José de Alencar ( O Guarani, 1857) que passa a ser
largamente cultivado. Ligado a figurinos europeus ( Alexandre Dumas Filho,
Walter Scott, Eugênio Sue, Balzac), ou a americanos ( Fenimore Cooper),
propunha-se a valorizar os temas
nacionais ( o indinianismo, o sertanismo, os temas históricos e urbanos)
Com o Realismo, o romance vive um período de grandeza indiscutível, com Machado
de Assis, Aluisio Azevedo, Inglês de Souza(...) Lima Barretoe Graça Aranha intentam à luz das doutrinas
simbolistas, nacionalizar ainda mais o romance, mas é com o modernismo de 1922
em diante que ele atinge a sua maior altura observada até hoje. A partir
de 1930, vêm surgindo alguns nomes de
primeira categoria, dentro e fora das fronteiras do país: Jorge Amado, José Lins do Rego(...) “.
P. 388
Moisés,Massaud
. A Análise Literária. Ed. rev.e atual. – São Paulo: Cultrix, 2012.
GLOSSÁRIO EXPLICATIVO
DE ESTUDO . ALGUNS TERMOS DA LITERATURA
Liame: substantivo
masculino .1.ato ou efeito de liar(-se).
2. tudo o que prende, une ou liga; ligação;
vínculo. "l. espirituais" ( vínculo)
Prosa :substantivo feminino .1.expressão natural da
linguagem escrita ou falada, sem metrificação intencional e não sujeita a
ritmos regulares.
2.p.ext. aquilo que é
material, cotidiano, sem poesia.
"a p. da
realidade"
Esteta.1. substantivo de dois gêneros
pessoa que professa o
culto do belo.
2. fil especialista em
estética.
Proteiforme :adj. Que
muda de forma frequentemente (como Proteu, deus da mitologia grega).
mundividência
mun.di.vi.dên.ci.a
[mũdiviˈdẽsjɐ]
nome feminino
1. FILOSOFIA visão do mundo, conceção do
mundo
2. conceção do mundo que penetra a vida
espiritual do Homem
3. ideia geral da organização do cosmos de
acordo com as descobertas científicas
4. conjunto de intuições características
de um tipo humano ou cultural que condicionam a ciência e, de modo especial, as
formas normativa
1.
Cosmovisão
Significado de
Cosmovisão Por Dicionário inFormal (SP) em 15-07-2008
Cosmo: mundo ou
universo + visão: exergar algo, ver.
Concepção ou visão de
mundo.
Cada cultura carrega
consigo uma forma particular de ver a natureza que o rodeia. Os gregos enxergavam
o mundo de forma diferente dos persas. Cada um tinha uma cosmovisão diferente.
" Primeiro: A
análise constitui, precipuamente, um modo de ler, de ver o texto e de, portanto
, ensinar a ler e a ver" p. 26
Segundo: " Ensinar a ler implica o leitor ou o
educando a ver, a escolher o mais importante, não propriamente a julgá-lo, o
que constitui desígnio da crítica literária, embora para lá o convide (...)Quem
analisa , assinala no texto a parte objetiva e imediata, não parte subjetiva e
mediata, pois esta escapa dos propósitos da análise, além de reclamar um longo
tirocínio na aplicação de um conjunto de informações de ordem cultural,
afetiva, etc.., que nenhum um livro, sozinho poderá dar. Nem mesmo uma
biblioteca inteira. p. 27.
Terceiro " A
análise deve abster-se de adjetivar.(...) pode gerar em logomania na mão do
principiante(...) classificar, ordenar , nunca estabelecer juízos de valor. p.
27. 28
Quarto: (...)
exemplifica a obrigação que o analista tem de interrogar o texto em seu
"como" e seu por quê" Somente com tais indagações o texto se
franqueia à curiosidade do leitor" p.28
Quinto: " o texto
literário, sendo composto de metáforas, é ambíguo por natureza, guarda uma
multiciplidade de sentidos. Ler mal significa não perceber a extensão dessa
ambiguidade ou polissemia, ou apenas percebê-la sem poder compreendê-la ou
justificá-la(...) p. 28
HISTÓRICO
DO ROMANCE
(...) no Brasil o
romance chegou tardiamente, e não raro mesclado de expedientes novelescos : só
com Joaquim Manoel de Macedo( A Moreninha, 1844) começa de vez os eu cultivo
entre nós, mas é com José de Alencar ( O Guarani, 1857) que passa a ser
largamente cultivado. Ligado a figurinos europeus ( Alexandre Dumas Filho,
Walter Scott, Eugênio Sue, Balzac), ou a americanos ( Fenimore Cooper),
propunha-se a valorizar os temas
nacionais ( o indinianismo, o sertanismo, os temas históricos e urbanos)
Com o Realismo, o romance vive um período de grandeza indiscutível, com Machado
de Assis, Aluisio Azevedo, Inglês de Souza(...) Lima Barretoe Graça Aranha intentam à luz das doutrinas
simbolistas, nacionalizar ainda mais o romance, mas é com o modernismo de 1922
em diante que ele atinge a sua maior altura observada até hoje. A partir
de 1930, vêm surgindo alguns nomes de
primeira categoria, dentro e fora das fronteiras do país: Jorge Amado, José Lins do Rego(...) “.
P. 388
Romance- a composição-
“As técnicas de
composição, em número ilimitado, nascem dos arranjos possíveis dessas células
dramáticas, tudo dependendo da imaginação e do talento do romancista. Não há um
esquema rígido nem prévio: cada situação dramática é um caso à parte, único,
distinto dos outros, de acordo com a substância da obra; cada romance formula
as próprias convenções e leis, sempre atendendo às exigências que fazem dele um
romance e não um conto ou novela. “ p.488
“(...)agrupar o romance
em dois tipos fundamentais, conforme a relevância da técnica empregada.
Entendamos, porém, que esta resulta do modo como o romancista encara realidade,
o que permite supor duas técnicas de composição e duas muldividências
equivalentes e, até certo ponto, recíprocas. Desse modo, falar das técnicas é falar das visões de mundo e vice-versa. P.
488.
“ Primeira: o
romancista abstrai da realidade viva, circundante, uma estrutura orgânica, em
consequência de abstrair o mundo. O romancista ordena e unifica racionalmente
os dados recolhidos por sua sensibilidade segundo um cânone que apenas rege a
obra escrita, e não o mundo real de onde a sua intuição partiu. O romance
torna-se um universo fechado, autônomo, paralelo ao outro que espelha ou em
quem se espelha. Esse processo de composição, literário por excelência, não
pretende reproduzir a realidade vital, mas criar um mundo todo seu,
independente, regulado por normas que não cabem no mundo real. É a técnica
adotada pelo romance linear ou progressivo.
p.488
“ Segunda: o romancista
procura imitar o mundo e a natureza, notadamente no seu aspecto caótico. Guiado
pela sua sensibilidade liberta de pressupostos lógicos, procura captar a
realidade viva tal qual se lhe apresenta no plano dos sentidos, por outras
palavras, extrair da realidade a sua estrutura dinâmica e descontínua, -
esquiva às racionalizações. O romance , por isso, utiliza uma estruturação
semelhante à da realidade flutuante que o escritor procura desvendar e
conhecer. É o caso do romance vertical e analítico” p.488. 489.
“ (...). O romance linear ou progressivo adota
técnicas monofônicas, isto é, em que só um tema, só um ritmo ou uma só escala
musical orienta o andamento da história, a tal ponto que acabam sendo
monótonas, inclusive no sentido pejorativo do termo. (...) O narrador está mais
interessado na história do que em criar uma obra, escrever um livro: os meios
se empobrecem para favorecer o propósito exclusivo de trançar o enredo; o
romance, como recriação polivalente do mundo( que demandaria uma técnicas), não
conta para ele. p. 489.
“ (...). Em razão da
monofonia, aliada à incidência de postulados ideológicos, pode ainda ocorrer
que o ficcionista construa o romance( e, portanto reconstrua a realidade) como
se estivesse demonstrando um teorema. Processo mais falso que o anterior, pois
teorema e construção romanesca se antagonizam por natureza, o seu emprego –
como durante o Realismo e o Naturalismo – pode violentar a matriz vital de onde mana a plausilidade do romance como
recriação do mundo.. E , por isso,
acabou de se transformar num processo artificial e mecânico, sobretudo nas mãos
de ficcionista inábeis. “ p.489
“ (...) , o romance
vertical adota técnica polifônica ou sinfônica uma vez que “ o romance se
constrói como uma sinfonia, em que as vozes se equilibram, se casam , se
respondem, em que brilham grandes temas , tratados em tons e tempos diversos,
em que todas as variações se encadeiam a partir de uma ‘ ouverture’ majestosa
que domina a obra, pois imediatamente cria para ela um clima particular, mas
permanecendo em lugar, evita criar, por sua amplificação desmesurada, uma
hipertrofia que lhe romperia o equilíbrio” (idem, 199-2000; Backitin 1988).”
P.490
“ Essa técnica
pressupões a transposição, para o plano ficcional, do caos em que mergulha o
mundo real quando analisado sem preconceitos matemáticos ou lógicos. O romance
que o adota, o analítico, aproxima-se da
vida pela estrutura desordenada em que se sustenta, mas é preciso cautela para
julgar essa mimese. Eis por que o romance vertical continua a proceder
basicamente como o linear, sob pena de perder a fisionomia literária: a sua
estrutura obedece a determinadas
convenções e leis próprias da ficção, e não às que norteiam o mundo dos seres
vivos. Trata-se de um caos literário,
organizado e fixado, pelo fato de o romance conter uma visão da
realidade. (...) . O romance flagra uma das metamorfoses do cenário existencial
e confere-lhe atestado de permanência e imutabilidade. O caos do romance será
sempre igual a si próprio, e reflexo de transposição de um instante de panorama
universal, ao passo que este corre sem parar em várias direções. A entropia do
mundo reflete-se no microssomo romanesco e deixa-se contemplar. P.491
“ . O romance sinfônico
ou polifônico procura refletir a realidade em todas as suas dimensões, e não
apenas em linha reta, como se lhe catasse a essência, que é uma esfera e não um
retângulo( como faz crer o romance linear) (...) como se o ficcionista, vendo o
mundo em determinado momento, conseguisse apreender-lhe a face coberta de
sombras no simples desejo de concentrá-lo numa síntese polifônica. Ou como se
imobilizasse um momento que representa o permanente fluir para o desconhecido.,
de forma que, numa visada, se apreendessem também os sinais do que o mundo já foi e do que virá a ser nas futuras mutações. O
romance simbolizaria o passageiro e o perene das coisas, seja pela estrutura
sinfônica , utilizada, seja pelos dados
misteriosos , que a sensibilidade do ficcionista detecta no instante de
visualizar o mundo no seu ininterrupto dinamismo.. p. 491
“Assim se explicaria o
alcance de certas narrativas e de
certas epopeias: sintonizam o
transitório e nele divisam o perene, tornando-se espelhos em que as gerações se
miram como se recuperassem modos de ser conservados no inconsciente coletivo.
Autênticos microssomos, tais romances e poemas épico significam o esforço que
todo ser humano empreende a fim de compreender a complexidade do mundo, bem
como de encerrá-la numa suma perfeita e tentar resolver os enigmas que a sua
inteligência cria ou desvenda. “ p.491
(...). Uma simples
incidência no viver de cada indivíduo repercute um movimento geral, composto da
soma de ocorrências individuais interligadas, e deflagra ao mesmo tempo um
processo que vai exercer, por sua vez, influêcia em tudo o mais à sua volta.
P.492.
(...) . Um perfume, uma
cor, uma nota musical, um detalhe físico, um tudo-nada pode provocar sutil e
profusa imersão no tempo ou na memória, que irá associar-se , por contágio, a
incontáveis peculiaridades da vida social. Tal processo de simultaneidade se desenrola
no presente, como horizontalidade, e no passado, como verticalidade, tudo
compondo inextricável amálgama. Essa técnica, que explora as sinestesias em
toda a sua extensão torna-se a chave do
romance vertical, como bem exemplifica a ficção de Proust. P. 492
“(...). De certo modo,
o romancista tenta, conscientemente ou não, criar um microssomo ficcional
semelhante ao cosmo que lhe serve de modelo. Nas literaturas vernáculas, o
processo tem sido poucas vezes empregado, e sem maior êxito, como resultado de uma conjuntura
histórico-cultural cujo exame não cabe
no espaço destas considerações. Os poucos exemplos mencionáveis situam-se nos
primeiros degraus em matéria de complexidade. O Cortiço emprega, conquanto de
forma embrionária, a polifonia simultaneísta. P.492
“(...) , a técnica
polifônica aproxima-se da vida, não da
aparente, mas da subterrânea, de que só nos apercebemos quando dela
abstraímos o transitório, ou procuramos vê-la de perto. Contudo, é mais
vida que a simplicidade linear do romance progressivo. “p. 493
“Paradoxalmente, o
leitor médio parece reconhecer-se mais no romance linear do que no “vertical”,
talvez por buscar na leitura uma esfera além da vida, um narcótico para os
sentido, ou porque não alcança enxergar , nem na vida nem no romance vertical,
as suas dimensões ocultas e significativas. Na história que lhe simplifica
esquematiza o real, ele se encontra e se completa; na outra, não. Por isso, o
romance vertical continua ainda de circulação erudita de leitores cultos ou de
intelectuais, capazes de abstração ou de valorizar uma visão microscópica do
mundo; e o linear é preferido pelo leitor menos interessado nos componentes
estéticos e filosóficos do romance do que no fluir da história, ou pelos
intelectuais menos exigentes, que só atinam com as passagens descritivas do
romance, ou com aquelas que correspondem à defesa da sua crença ideológica. P.
494
O
romance e as demais formas de conhecimento
(...) , a Literatura
reflete as condições ambientais em que
se desenvolve , assim como a Filosofia, as ci~encias, as religiões e as demais
artes, mas não se explicam somente pelo contexto social. É certo, pois, que a
atividade literária recebe influência externa, seja no ambiente , seja das
outras formas de expressão da realidade. Contudo, não se perca de vista
que também atua sobre o contexto à sua
volta, num movimento de permuta que
jamais cessa. P. 517
(...). E entre as
formas em prosa, cabe ao romance papel relevante: além de exercer impacto na
vida, colaborando para que os leitores construam a sua muldividência, absorve e
integra os fluxos que partem da história, da psicologia, das artes, etc. Tudo parece convergir para o
romance, tudo procura ser, não um livro, como queria Mallarmé, mas um romance.
“Eis por que a obra completa da prosa é o romance” ( Alain 1963: 313) “ p. 517
(...) ; o romance tende
a atrair para dentr4o dos seus limites
as outras formas em prosa, ou a impor-lhes mudança substancial. Mais ainda, qual
poderosa calafita, imanta a poesia e o teatro e acaba por assimilá-los: “ o
romance é um gênero imperialista. Nele há uma vontade de domínio e um poder de absorção comparáveis aos da raça
anglo-saxônica. Se começou a nutrir-se
com as sobras da poesia e do teatro, agora está à mesa; a casa lhe pertence e eles devem
abandoná-la[...] o romance devora tudo” ( Thibaudet 1963: 156). Como essa
galvanização se afigura o tópico mais significativo do capítulo das relações
entre a Literatura e as demais formas de conhecimento, nele deteremos a
atenção. “ p. 517.
Romance
e poesia
“ A cosmovisão
ficcional , recriador ado mundo, carrega poesia nas bases, segundo um mecanismo
fácil de entender: fruto da imaginação(mais a observação e a memória), o
romance escapa de ser uma fotografia da realidade para se tornar uma visão pessoal
, subjetiva. O ficcionista deforma a realidade por via da imaginação , buscando
acomodá-la nos limites e nas estruturas
que seleciona para esse fim: ora, tanto as estruturas são
paraestruturas, resultantes da imaginação transfiguradora do real, como o são
as metáforas de que o escritor se vale para erguê-las e exprimi-las. A dinâmica
que aciona o imaginar, o estruturar e o metaforizar corresponde a ações que
implicam poesia, com a condição de se coordenarem e de se integrarem na matéria
do romance” . p. 520.
“ Com efeito, o romance
introspectivo eo psicológico trouxeram nova concepção de realismo e realidade.
Não mais o “real por fora” , mas o “real
por dentro”: o olhar não detecta apenas o “fora”, mas também o “dentro “
dos seres e objetos, como se o romancista , podendo radiográfa-los, lhes
sondasse os labirintos interiores. Considerada superfície do mundo ilusão
passageira, a essência das coisas torna-se agora o foco da atenção. De repente,
as coisas , tachadas de inertes pelo realismo anterior, entram a agitar-se ,
como animadas por um misterioso moto-contínuo. O mundo torna-se palco de
enigmas, e cada objeto um vórtice em
que se perde o olhar extasiado do
romancista. Tudo ganha estranha fisionomia, como se o mundo fosse habitado por
seres desconhecidos em perpétuo dinamismo e a exercer forte pressão sobre as
criaturas pensantes. Como diria Fernando Pessoa, tudo vira do avesso e
entrega-se a frenesis sem pausa, sob o comando de magias e bruxedos. O real é,
agora, esse mundo novo desvendado, e não mais o outro, composto de seres em
repouso e oferecidos à visão preconceituosa do romancista”. P. 522
HISTÓRICO
DO ROMANCE
(...) no Brasil o
romance chegou tardiamente, e não raro mesclado de expedientes novelescos : só
com Joaquim Manoel de Macedo( A Moreninha, 1844) começa de vez os eu cultivo
entre nós, mas é com José de Alencar ( O Guarani, 1857) que passa a ser
largamente cultivado. Ligado a figurinos europeus ( Alexandre Dumas Filho,
Walter Scott, Eugênio Sue, Balzac), ou a americanos ( Fenimore Cooper),
propunha-se a valorizar os temas
nacionais ( o indinianismo, o sertanismo, os temas históricos e urbanos)
Com o Realismo, o romance vive um período de grandeza indiscutível, com Machado
de Assis, Aluisio Azevedo, Inglês de Souza(...) Lima Barretoe Graça Aranha intentam à luz das doutrinas
simbolistas, nacionalizar ainda mais o romance, mas é com o modernismo de 1922
em diante que ele atinge a sua maior altura observada até hoje. A partir de 1930, vêm surgindo alguns nomes de primeira
categoria, dentro e fora das fronteiras do
país: Jorge Amado, José Lins do Rego(...) “. P. 388
.
Nenhum comentário:
Postar um comentário